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Tropa de Elite 2, de José Padilha (Brasil)

Por Marcelo Janot

No Tropa de Elite de 2007, o diretor José Padilha preferiu focar no embate entre o heróico Capitão Nascimento e seu pupilo Matias contra as forças do mal da banda podre da PM e da bandidagem, oferecendo indícios de resolução do conflito pela lógica fascista. Embora desde sempre Padilha tenha negado qualquer intenção de transformar o Capitão Nascimento de Tropa de Elite 1 em herói, o fato é que a ideologia do personagem foi perigosamente adotada por boa parte dos espectadores do filme como a única solução para "limpar" o Rio de Janeiro do crime organizado.

Tropa de Elite 2 - O inimigo agora é outro representa um alívio para todos aqueles que reagiram com preocupação à mensagem transmitida pelo primeiro filme. O Capitão Nascimento, agora Tenente-Coronel, mudou sua postura, passou a admitir rever certos conceitos. Há de se destacar os inúmeros avanços em relação ao primeiro filme. No campo temático/ideológico, a opção por, finalmente, colocar a política no cerne da questão que envolve a violência urbana - algo que já fazia parte de Elite da Tropa, o livro que inspirou o primeiro Tropa. Se noTropa 1 a narrativa era construída de forma a entorpecer o espectador no sentido de não lhe dar brecha para reflexão, mas sim para comprar a tese do Capitão Nascimento, aqui a platéia é convidada a refletir com ele. 

Dessa vez o roteiro consegue atingir o equilíbrio quase perfeito entre os bastidores da violência e a sua execução. Mas ele está mais para os filmes de máfia de Scorsese do que para o cinema de Costa-Gavras. Não é à tôa que a cena de abertura, com Nascimento saindo do hospital e tendo seu carro metralhado, soa quase como uma citação explícita ao prólogo de Cassino, em que o carro de Robert De Niro explode.

Tecnicamente, o filme não deixa nada a dever aos melhores momentos do thriller policial americano, nas envolventes cenas de ação e sobretudo no magnífico desempenho do elenco, com destaque para Wagner Moura e o vilão-revelação interpretado por Sandro Rocha, o major Rocha. A grande diferença é que com a ação se passando no Rio de Janeiro de agora, e não na distante realidade da ficção, a capacidade de envolvimento e indignação do espectador é muito maior. E dessa vez é canalizada para o Bem, mostrando que não vai ser torturando e exterminando bandidos que a violência urbana vai chegar ao fim. Só é uma pena que o filme não tenha sido lançado antes das eleições para deputado federal e estadual, para que o eleitor tivesse a chance de refletir sobre a necessidade de uma "limpeza ética" no Congresso Nacional e na Assembléia Legislativa. 

Brasil, 2010 - Direção: José Padilha - Roteiro: José Padilha e Bráulio Mantovani - Produção: Marcos Prado e Malu Miranda - Fotografia: Lula Carvalho - Montagem: Daniel Rezende - Música: Pedro Bromfman  - Elenco: Wagner Moura, Maria Ribeiro, Irandhir Santos, André Ramiro, Seu Jorge, Milhem Cortaz, Sandro Rocha, Emilio Orciollo Netto - Duração: 118 minutos

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